O país asiático atua como polo logístico, o que pode ampliar o alcance da proteína brasileira no sudeste asiático

O Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e Singapura entra em vigor neste sábado (1) e representa um novo passo na estratégia brasileira de ampliar mercados para a carne bovina e reduzir a dependência de grandes compradores, como a China. Embora o país asiático tenha um mercado consumidor relativamente pequeno, analistas avaliam que o principal efeito do acordo será estrutural, ao oferecer maior segurança jurídica para as exportações, facilitar o comércio e abrir espaço para a diversificação dos destinos da proteína brasileira.
O principal benefício para a carne bovina é a concessão de tarifa zero imediata para 100% das linhas tarifárias de Singapura. Na prática, toda a carne bovina exportada pelo Brasil poderá ingressar no mercado singapuriano sem incidência de imposto de importação, aumentando a competitividade do produto brasileiro frente a outros fornecedores internacionais.
Para usufruir da preferência tarifária, no entanto, os exportadores precisarão cumprir as regras de origem previstas no acordo. Será necessário comprovar que a carne atende aos critérios estabelecidos entre Mercosul e Singapura, demonstrando que o produto foi totalmente obtido ou processado no Brasil. As orientações sobre classificação de mercadorias, emissão da prova de origem e procedimentos operacionais já foram disponibilizadas pelo MIDC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) por meio do Portal Siscomex.
Além da eliminação das tarifas, o acordo estabelece critérios comuns para as operações comerciais entre as partes, amplia o acesso ao mercado de serviços, incentiva investimentos e inclui um capítulo específico sobre comércio eletrônico, o primeiro negociado pelo Mercosul com um parceiro extrarregional. O acordo já está em vigor no Paraguai desde fevereiro e no Uruguai desde março.
Embora Singapura esteja longe de representar um mercado do tamanho da China, o país ocupa uma posição estratégica no comércio asiático. Além de ser um importante centro financeiro, é considerado um dos principais polos logísticos da região, característica que pode ampliar a presença da carne brasileira em outros mercados do Sudeste Asiático.
Para o analista de mercado da Safras & Mercado, Fernando Henrique Iglesias, o acordo fortalece não apenas as exportações de carne bovina, mas de todas as proteínas animais produzidas pelo Brasil.
Segundo ele, Singapura é um mercado em expansão e a redução das barreiras comerciais facilita a entrada de novos produtos brasileiros, contribuindo para a diversificação das exportações e reduzindo a concentração das vendas em poucos destinos.
“Esse acordo vai ser muito útil para as exportações brasileiras de proteínas de origem animal, não só de carne bovina, como para as demais, e pode facilitar o acesso a mais produtos no mercado. É um mercado importante, em expansão, que pode ajudar muito na diversificação das exportações brasileiras”, afirma Iglesias.
Na avaliação do analista da Terra Agro, Geraldo Isoldi, os efeitos positivos devem ocorrer de forma gradual e não devem provocar mudanças imediatas nos preços da carne bovina.
“Vai ampliar o acesso ao mercado, mas não vai interferir nos preços de imediato e muito menos de forma isolada. É uma mudança muito mais importante do ponto de vista estrutural”, diz.
Segundo o analista, a abertura de novos mercados reduz a concentração das exportações brasileiras. “Quanto mais a gente diversificar esse mercado com Singapura, com Coreia do Sul e outros países, melhor. Mas nenhuma dessas nações, isoladamente ou mesmo em conjunto, substitui a China. Essa é a realidade do mercado hoje”, afirma.
De acordo com os dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior), o Brasil exportou cerca de 25,3 mil toneladas de carne bovina para Singapura no ano passado, o maior volume já registrado nas vendas ao país. No mesmo período, os embarques para a China alcançaram aproximadamente 1,7 milhão de toneladas, volume quase 70 vezes superior.
Para Isoldi, isso mostra que a diversificação é importante para reduzir riscos e ampliar oportunidades, mas o impacto econômico ocorre de forma gradual e depende da abertura de vários mercados ao longo do tempo, e não apenas de um único parceiro comercial.
O consultor de mercado Rodrigo Costa avalia que o maior ganho do acordo não está apenas na eliminação das tarifas, mas em três pilares que aumentam a competitividade da carne bovina brasileira no longo prazo.
“O real benefício do acordo para a carne bovina está em três ganhos estruturais, sendo eles a segurança jurídica, regras de origem mais claras e facilitação aduaneira com potencial logístico”, afirma o consultor de mercado.
Antes do tratado, a tarifa zero poderia ser alterada unilateralmente pelo governo de Singapura. Com a entrada em vigor do acordo, esse benefício passa a fazer parte de um compromisso internacional, oferecendo maior previsibilidade para exportadores e investidores.
O segundo ponto é a definição de regras de origem mais claras, com critérios objetivos para comprovar que a carne é efetivamente brasileira. Na avaliação do consultor, isso reduz riscos de questionamentos pelas autoridades aduaneiras e simplifica os processos de certificação.
O terceiro benefício está na facilitação aduaneira e no potencial logístico. Além da simplificação dos procedimentos alfandegários, Singapura pode ampliar seu papel como plataforma de redistribuição de mercadorias para outros países asiáticos, funcionando como um hub logístico para a carne bovina brasileira.
Relação comercial
Em 2025, a corrente de comércio entre Brasil e Singapura alcançou US$ 10,7 bilhões, sendo US$ 7,4 bilhões em exportações brasileiras, com superávit comercial de US$ 4,1 bilhões. Entre os principais produtos enviados ao país estão óleos combustíveis, máquinas e proteínas animais, como carnes bovina, suína e de aves.
Assinado em 2022, o Acordo Mercosul-Singapura foi negociado desde 2018. A expectativa do governo brasileiro é que o tratado eleve em cerca de US$ 500 milhões por ano as exportações do Mercosul para o país asiático e contribua para um aumento de R$ 28,1 bilhões no PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro até 2041.
Com informações da CNN Brasil.
