Atrativos em meio à guerra: entenda como o Zenit segue como “ameaça” a clubes brasileiros no mercado

Esportes

Time que levou Gerson e Luiz Henrique tem outros seis brasileiros no elenco atual e mantém grande poder financeiro por causa de uma das maiores exportadoras de gás do mundo

Zenit conquista o Campeonato Russo de 2022/23 — Foto: Mike Kireev/NurPhoto via Getty Images
Zenit conquista o Campeonato Russo de 2022/23 — Foto: Mike Kireev/NurPhoto via Getty Images

A cada janela de transferências, o Zenit invade os noticiários brasileiros com cifras altíssimas e muito interesse por jogadores que disputam a liga nacional. Só no último semestre, o clube russo contratou duas grandes estrelas do Brasileirão (Gerson, do Flamengo, e Luiz Henrique, do Botafogo), além de ter tentado tirar outros nomes importantes de times brasucas. Entre acertos e recusas, o clube centenário colocou mais de R$ 560 milhões na mesa em poucos meses.

Mas, afinal, de onde vem todo esse dinheiro? Qual o atrativo para esses atletas mesmo com os bloqueios da guerra? O ge explica.

Zenit destaca brasileiros em vídeo de comemoração pelo centenário

Entre os clubes mais tradicionais da Rússia, o Zenit foi fundado em 1925 através da união de trabalhadores de uma fábrica da antiga União Soviética. O maior vencedor do Campeonato Russo (empatado em 10 troféus com o Spartak Moscou) está na Primeira Divisão da Rússia há 14 anos e coleciona 11 participações na Champions League.

Entenda como o Zenit segue como "ameaça" a clubes brasileiros no mercado — Foto: Infografia / ge
Entenda como o Zenit segue como “ameaça” a clubes brasileiros no mercado — Foto: Infografia / ge

O Zenit viveu um apogeu nos anos 2000, já venceu uma Copa da Uefa (atual Liga Europa), além de ter conquistado a primeira Supercopa da Uefa para a Rússia, ao vencer o Manchester United em 2008. Entretanto, desde 2022 o time – assim como todos os clubes e a seleção russa – está suspenso de qualquer competição da Fifa e da Uefa, como parte de uma sanção pela Guerra contra a Ucrânia. Por isso, a equipe disputa apenas torneios nacionais.

Projeto Brasil

O Zenit vem mostrando há algumas temporadas o forte interesse nos brasileiros. Nas últimas quatro, tirando os nascidos na Rússia, os atletas do Brasil foram maioria entre todos os jogadores de linha. E chegaram perto de empatar com os atletas russos.

Em 2023/24, assim como na temporada que vai começar (2025/26), houve apenas um jogador brasileiro a menos do que os nascidos na Rússia. Em todas as últimas quatro temporadas, os brasucas foram maioria absoluta entre os estrangeiros.

O elenco atual conta com oito representantes do Brasil entre os jogadores de linha: Douglas Santos, Nino, Robert Renan, Gerson, Wendel, Gustavo Mantuan, Luiz Henrique, Pedrinho. Nesse recorte atual, o plantel também tem nove russos, dois argentinos, dois colombianos, dois da Sérvia e um da Eslovênia.

Jogadores brasileiros (de linha) no Zenit
Nas últimas quatro temporadas
Quantidade de atletas do Brasil6699558822/2323/2424/2525/260246810

23/24
atletas 9

Sem contar grandes nomes do futebol brasileiro atual que também já passaram pelo Zenit, como Hulk (Atlético-MG), Malcom (Al-Hilal), Artur (Botafogo), Yuri Alberto (Corinthians) e Claudinho (Al-Sadd). Ao todo, foram 19 atletas do Brasil na história, responsáveis por 234 gols do clube russo.

Assim, o Brasil é o segundo país que mais cedeu jogadores ao Zenit, perdendo apenas para a Ucrânia, com 32. Entre as 15 principais nacionalidades na história do clube, apenas Brasil e Argentina são do continente americano (argentinos são 10). Todos os demais são asiáticos ou europeus.

O Campeonato Russo tem um limite de 13 jogadores estrangeiros por elenco, sendo que no máximo oito podem estar em campo ao mesmo tempo. A regra facilita o interesse no futebol de fora, já que em outras ligas o regulamento é mais restrito. A título de exemplo, no Brasil, cada time não pode ter mais do que nove atletas do exterior.

Malcom, Wendel e Claudinho, do Zenit: brasileiros que atuam na Rússia e na Ucrânia poderão suspender contratos e atuar por outras equipes até junho — Foto: Getty Images
Malcom, Wendel e Claudinho, do Zenit: brasileiros que atuam na Rússia e na Ucrânia poderão suspender contratos e atuar por outras equipes até junho — Foto: Getty Images

Esse entusiasmo pelo futebol daqui foi muito presente nesse início de ano, não só com jogadores brasileiros, mas também com estrangeiros que estão em destaque em clubes do Brasil. O Flamengo recusou uma proposta de R$ 150 milhões de reais por Wesley; Matheus Pereira, do Cruzeiro, ficou a detalhes de ser contratado por R$ 100 milhões; o Fluminense negou mais de uma oferta por Arias; e o Corinthians rejeitou 148 milhões de reais por Garro.

O caso mais recente foi o de Richard Ríos. Atleta que é colombiano, mas se formou no futebol brasileiro: jogou na base e no time profissional do Flamengo , passou pelo Guarani e atuou no Palmeiras por dois anos. O Zenit ofereceu mais de 29 milhões de euros (R$190 milhões) ao clube paulista, mas o volante recusou.

A força do gás natural

 

O Zenit sempre foi uma das maiores potências da Rússia, mas o ponto decisivo na história do time aconteceu em 2005: quando a Gazprom se tornou patrocinadora master e sócia majoritária do clube. Ela é a maior empresa de energia da Rússia, controla 14 ativos de petróleo em 8 países e teve fluxo de caixa de 24,6 bilhões de dólares (R$ 136 bilhões) em 2023, segundo a Forbes.

Gazprom, empresa de gás russa, é patrocinadora do Zenit desde 2005 — Foto: Chris Brunskill/Fantasista/Getty Images

Gazprom, empresa de gás russa, é patrocinadora do Zenit desde 2005 — Foto: Chris Brunskill/Fantasista/Getty Images

É verdade que a Gazprom perdeu uma parte da sua influência depois do início da Guerra com a Ucrânia, especialmente pelas sanções e bloqueios da Europa. Ainda assim, a instituição permanece como a maior produtora de gás natural do mundo (segundo dados de 2023, os mais recentes disponíveis), responsável por cerca de 10% de toda produção mundial.

Aliás, a casa do Zenit foi construída pelo governo de São Petersburgo, mas leva o nome da empresa de gás: a Gazprom Arena. Com campo e teto retráteis, o estádio tem capacidade para 69 mil pessoas em jogos de futebol e pode receber até 80 mil em outras propostas.

A arena recebeu grandes eventos como a Eurocopa de 2020 e a Copa do Mundo de 2018 e custou R$ 2,3 bilhões na época das obras. A Gazprom também já foi patrocinadora da Uefa, mas perdeu o contrato há três anos, pela retaliação à invasão da Ucrânia pelas forças militares da Rússia.

Um fator importante sobre a força do Zenit devido a Gazprom é a conexão com o governo de Putin. A Rússia é dona de 50,2% das ações originárias da empresa e, em termos práticos, é acionista controladora, tendo direito a nomear o conselho de administração e aprovar decisões estratégicas e operacionais.

— A diretoria da Gazprom, por exemplo, costuma ser composta por aliados políticos de Putin. A Gazprom já representou mais de 25% da arrecadação fiscal e é um dos principais canais de receita externa da Rússia — explica Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da UFF, Doutor em Políticas Públicas e pesquisador de Harvard.

O vínculo entre Gazprom e Zenit só cresceu nos últimos 20 anos. Atualmente, o clube tem sete patrocinadores menores que a ela. Sendo que quatro deles são subsidiários da empresa, ou seja, são subordinadas a holding de gás. São eles:

  • Gazprom Neft – produtora de petróleo
  • Gazprombank – banco privado, o terceiro maior do país em ativos
  • Gazprom Pererabotka – complexo de tratamento e processamento de gás e derivados
  • Gazprom Transgaz São Petersburgo – transportadora de gás natural no noroeste da Rússia

 

E o patrocínio fez efeito: 26 dos 29 títulos do Zenit foram conquistados após o patrocínio da Gazprom.

Zenit conquista o Campeonato Russo de 2022/23 — Foto: Mike Kireev/NurPhoto via Getty Images

Apesar da relação pela empresa de gás, não é correto afirmar que o Zenit é financiado diretamente pelo Estado russo, assim como acontece na Arábia Saudita com Al-Hilal e Al-Nassr, por exemplo. Clubes esses que foram comprados pelo governo saudita como parte da estatização do futebol no país.

Entretanto, Vitelio destaca que há um interesse do Estado russo na valorização do Zenit.

Há uma relação de promoção do poder de influência russo por meio do patrocínio da Gazprom ao Zenit, que vai além do investimento esportivo. É uma estratégia de soft power, de poder brando. A Gazprom reforça o seu caráter como ferramenta estatal de projeção internacional. Ao associar o clube a essa empresa, a Rússia busca melhorar a imagem do país e faz um contraponto ao governo russo
— disse o professor de Relações Internacionais da UFF.

Por que os brasileiros?

Luiz Henrique e Gerson em Zenit x Rostov na Gazprom Arena — Foto: Mike Kireev/NurPhoto via Getty Images
Luiz Henrique e Gerson em Zenit x Rostov na Gazprom Arena — Foto: Mike Kireev/NurPhoto via Getty Images

A alta procura pelos jogadores do Brasil tem razões ligadas aos próprios atletas, mas também às vantagens para o Zenit. A principal delas é que os bloqueios europeus promovidos pela Guerra tornam mais difíceis as transferências do clube com países da Europa. Logo, contratar na América do Sul, onde os impeditivos políticos e financeiros são menores, é mais acessível.

Nikolai Kiselev, jornalista russo e dono do principal portal de notícias online do Zenit na Rússia, explica que na visão do time os jogadores sul-americanos também são mais propícios aceitar a mudança para o país.

— Os melhores jogadores dos clubes europeus estão mais relutantes em se mudar para a Rússia, devido à pressão geral, enquanto isso é muito menos problemático para os sul-americanos. Além disso, na Rússia, os jogadores não enfrentam o mesmo tipo de pressão intensa dos torcedores. Adoramos futebol, nos importamos com os resultados, mas temos uma mentalidade muito mais calma. Gerson, por exemplo, nunca enfrentará o tipo de pressão avassaladora que experimentou no Brasil. Ele pode simplesmente aproveitar o jogo, ganhar um bom dinheiro e viver confortavelmente — disse Kiselev.

Para o lado dos atletas, ele acredita que as altas cifras tem um fator de peso para a decisão, apesar de não ser só isso que o time oferece. O contrato de Gerson, por exemplo, renderá 6 milhões de euros por ano livres de impostos, o equivalente a R$ 38 milhões por temporada.

Academia Gazprom: o centro de treinamento do Zenit, em São Petesburgo — Foto: Reprodução / Zenit
Academia Gazprom: o centro de treinamento do Zenit, em São Petesburgo — Foto: Reprodução / Zenit

O Zenit luta contra a alta concorrência dos clubes da Arábia Saudita, onde os aportes financeiros também são mais que atrativos. Nikolai diz que a diferença à favor dos russos é que lá ainda há uma pressão das torcidas, mesmo que menor do que no Brasil, e condições mais intensas para se adaptar, como a religião e o clima.

Segundo o jornalista, o Zenit também investe nos fatores estruturais para convencer os jogadores a deixar o futebol brasileiro. O principal deles é o estilo de vida agradável da segunda maior cidade russa, sede do time, e a estrutura do clube.

São Petersburgo é uma cidade confortável e moderna, comparável a muitas grandes cidades europeias — especialmente se ganhar um salário elevado, o que faz a diferença. O Zenit também oferece ótimas condições. O clube está verdadeiramente focado em fazer com que os jogadores se sintam confortáveis, e o nível de profissionalismo é de primeira linha
— contou Kiselev.

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