Juiz inglês afasta, neste primeiro momento, pedido por declaração formal da FIA admitindo o descumprimento de suas regras no Singapuragate. Mas luta judicial está apenas começando
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A luta de Felipe Massa para ser reconhecido como campeão mundial da Fórmula 1 em 2008 avançou mais um passo nesta quinta-feira em Londres. O honorável juiz Robert Jay proferiu uma decisão detalhada rejeitando as tentativas dos réus de extinguir a ação de conspiração movida pelo piloto brasileiro. A acusação é que Bernie Ecclestone, a Formula One Management Limited (FOM) e a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) teriam deliberadamente atuado em conjunto para esconder o caráter intencional do acidente provocado por Nelsinho Piquet no GP de Singapura de 2008.
A decisão do juiz é uma vitória para o caso de Felipe Massa. As audiências preliminares serviram para a Justiça inglesa avaliar um pedido de extinção do processo por parte dos réus. Ao negar esta reivindicação, o caso vai avançar para um julgamento formal e agora começa a cumprir os prazos legais. Uma nova audiência deve ser chamada em até dois meses. Outro ponto importante da decisão: neste primeiro momento, o juiz Robert Jay apenas acatou o pedido de indenização pelos danos causados ao piloto brasileiro e negou o pedido de uma declaração formal da FIA de que Felipe Massa teria sido campeão mundial em 2008 se as regras não tivessem sido quebradas pela própria entidade.

Quem acompanha o Voando Baixo sabe que não gosto de escrever nada sem embasamento. E estou longe de ser um especialista em direito, ainda mais o da Inglaterra. Por isso, falei com alguns especialistas neste tipo de causa para entender o que ainda pode acontecer. Repararam que eu negritei a expressão “neste primeiro momento” no parágrafo acima? Então, nada impede – e é a intenção de Felipe Massa – que o piloto busque a obtenção do reconhecimento esportivo do título de 2008. Apesar da negativa preliminar do juiz, isso pode ser buscado durante o julgamento propriamente dito, seja pela sentença final ou por um acordo que evite uma longa luta judicial. Isto também está na mesa: ainda pode ocorrer uma conciliação entre Felipe Massa, Bernie Ecclestone, FIA e FOM.
Importante: vale destacar aqui também que, ao contrário do que já foi publicado em alguns veículos, Massa não busca a anulação do título de Lewis Hamilton. Primeiro porque seria algo dificilmente aceito pela Justiça – em qualquer lugar do mundo. E, além disso, Hamilton e McLaren não fizeram parte da conspiração: não seria justo punir alguém que também foi vítima, ainda que em menor escala, do Singapuragate em 2008. O que o brasileiro busca é o reconhecimento de seu título naquele ano, o que faria com que a Fórmula 1 passasse a ter dois campeões em uma temporada pela primeira vez na história. Nada anormal em se tratando que 2008 também foi a primeira vez em que houve a comprovação de que houve manipulação de resultados em uma corrida da categoria – tudo o que ocorreu após a volta 14 do GP de Singapura daquele ano ficou viciado pela atitude da Renault comandada por Flavio Briatore. Não há precedentes disso na história da Fórmula 1.
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Outro ponto importante: a parte que menos tem a perder em caso de um longo processo na Justiça inglesa é justamente Felipe Massa. Com o avanço do julgamento, é natural que sejam pedidos documentos confidenciais de todas os envolvidos. E esse tipo de exposição é sempre prejudicial para entidades como FIA e FOM, o que também poderia complicar Bernie Ecclestone. Por isso, não é nenhum absurdo que uma conciliação seja alcançada para evitar toda a publicidade negativa para o esporte. Além disso, sobre o reconhecimento esportivo de 2008, Massa ainda poderia lutar em outras instâncias, como a Justiça francesa ou até mesmo a Corte Arbitral do Esporte (CAS), na Suíça. Para isso, ele teria de obter uma conciliação favorável a seus interesses ou uma decisão favorável no fim do julgamento. Para isso, bastaria que, no processo, a FIA admitisse que agiu contra suas próprias regras em 2008 – e isso ainda é plenamente possível no julgamento.
E, como já escrevi em outros textos sobre este caso aqui no Voando Baixo, é uma questão de empatia. Imagine descobrir, muitos anos depois, que você foi vítima de uma conspiração que o impediu de alcançar o ponto mais alto de sua carreira. E tudo admitido por uma das maiores autoridades em sua área de atuação. O que você faria? Não reclamaria? Não iria atrás de seus direitos? De ao menos um reconhecimento? Se eu estivesse na posição, faria exatamente o mesmo.
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Para encerrar, é claro – e justo – que o piloto também busque uma reparação financeira pelo incidente. Ele pede o valor de £64 milhões (cerca de R$ 450 milhões) a título de ressarcimento por cláusulas de contratos que acabaram não sendo executadas. Mas, repito, por tudo o que já conversei com ele sobre esse caso, a grande busca é pelo reconhecimento esportivo. Demore meses ou anos. Além disso, Felipe Massa sempre foi uma pessoa muito bem resolvida com 2008. O que fez mudar essa questão na cabeça dele foi justamente a entrevista de Bernie Ecclestone ao jornalista alemão Ralf Bach no site F1-Insider em março de 2023. Ali aflorou nele a sensação de injustiça. A novela continua. Sigamos acompanhando as cenas dos próximos capítulos.
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Felipe Massa e Lewis Hamilton se cumprimentam antes do GP do Brasil de 2008, em Interlagos — Foto: Mark Thompson/Getty Images
