Tarifaço: Reciprocidade pioraria situação do Brasil, alertam especialistas

Economia
Ilustração gerada por IA

O governo brasileiro adotou um tom mais cauteloso diante da nova rodada de tarifas anunciada pelos Estados Unidos sobre produtos nacionais, evitando falar em retaliação imediata e priorizando estudos sobre os impactos econômicos da medida. A decisão busca preservar o diálogo com Washington e reduzir os efeitos sobre a economia brasileira, especialmente diante da previsão de que a sobretaxa entre em vigor na próxima quarta-feira (22).

Nos últimos dias, integrantes da equipe econômica chegaram a mencionar a possibilidade de recorrer à Lei da Reciprocidade, mecanismo que permite ao Brasil responder a barreiras comerciais impostas por outros países. Na terça-feira (14), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que essa alternativa estava sendo avaliada caso o novo tarifaço fosse confirmado. Um dia depois, reforçou que o Brasil faria valer seus interesses e defenderia sua soberania.

A posição, no entanto, foi ajustada ao longo da semana. Na sexta-feira (17), Durigan descartou a adoção de um discurso de enfrentamento e afirmou que o governo não trabalha com a ideia de retaliação. Segundo ele, a prioridade é agir com prudência diante do cenário.

De acordo com informações apuradas pela CNN Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou a realização de estudos para medir os efeitos econômicos da nova tarifa antes de qualquer decisão sobre uma eventual aplicação da Lei da Reciprocidade. A preocupação do Palácio do Planalto é evitar uma escalada da disputa comercial que possa resultar em novas sanções dos Estados Unidos ou pressionar os preços para os consumidores brasileiros.

Especialistas avaliam que o Brasil precisa priorizar a negociação diplomática. Para o economista e professor do Ibmec José Niemeyer, a relação comercial com os Estados Unidos é mais relevante para a economia brasileira do que o contrário, o que exige diálogo permanente entre os dois governos, independentemente de mudanças políticas.

Dados divulgados pelo governo brasileiro mostram que, nos últimos 15 anos, os Estados Unidos acumularam um superávit comercial de US$ 424,5 bilhões nas trocas de bens e serviços com o Brasil, reforçando a importância estratégica da parceria entre os dois países.

Na avaliação de Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), uma eventual resposta brasileira dificilmente faria os Estados Unidos recuarem das tarifas. Segundo ele, a estratégia brasileira tem se concentrado em pedidos e ofertas durante as negociações, enquanto Washington adota uma postura diferente nas disputas comerciais. O especialista também alerta que uma reação baseada em retaliações pode provocar novas sobretaxas por parte do governo norte-americano.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a tarifa adicional de 25% deverá atingir aproximadamente US$ 11 bilhões em exportações brasileiras. Em nota, a entidade manifestou preocupação com os impactos da medida sobre diversos setores da economia.

A Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) também defendeu uma atuação mais rápida e efetiva do governo nas negociações diplomáticas. Para a entidade, é fundamental preservar a competitividade da indústria nacional, os empregos e o fluxo comercial entre os dois países, mantendo o foco nas tratativas econômicas e afastando disputas de natureza política.

Segundo levantamento do Global Trade Alert (GTA), com a entrada em vigor da nova tarifa, o Brasil passará a ocupar a segunda posição entre os países mais tarifados pelos Estados Unidos, atrás apenas da China, com uma alíquota média superior a 18%.

As projeções indicam que a medida poderá reduzir em cerca de US$ 1 bilhão o fluxo comercial entre Brasil e Estados Unidos. De acordo com o analista de renda variável Felipe Cima, da Manchester Investimentos, o impacto estimado sobre o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro é de aproximadamente 0,03%, embora os efeitos possam variar conforme a evolução das negociações entre os dois governos e o comportamento do comércio internacional.

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