El País destaca unidade fluvial do SUS que leva atendimento médico a 230 comunidades isoladas de Manicoré

Cidades

Reportagem do jornal espanhol mostra como embarcação transforma rios do Amazonas em rota de acesso à saúde, beneficiando cerca de 28 mil moradores com consultas, exames, vacinas e medicamentos.

Atenção primária à saúde para comunidades remotas do interior do Amazonas, como parte do programa SUS na Floresta.

Uma unidade fluvial do Sistema Único de Saúde (SUS) percorre os rios de Manicoré, no Amazonas, para levar consultas, vacinas, medicamentos e exames a cerca de 28 mil moradores distribuídos por 230 comunidades. A estratégia transforma embarcações em centros de atendimento capazes de alcançar populações isoladas, para as quais uma viagem até a sede municipal pode consumir horas ou até dias.

A informação é do jornal espanhol El País, publicada na quarta-feira (22), sobre a presença do Estado brasileiro em áreas remotas da Amazônia.

A Unidade Básica de Saúde Fluvial Nossa Senhora das Dores navega pelos rios Madeira e Manicoré. A embarcação transporta médicos, enfermeiros, dentistas, vacinas, remédios e equipamentos laboratoriais, reunindo em um único espaço diferentes etapas do atendimento básico.

Sua estrutura inclui consultórios médicos e odontológicos, farmácia, laboratório e sala de vacinação. Também há alojamentos para os profissionais, que permanecem a bordo durante vários dias enquanto percorrem o extenso território do município.

As expedições permitem realizar consultas, exames, acompanhamento pré-natal, vacinação infantil e atendimento odontológico sem obrigar os moradores a deixar suas comunidades. Em casos de gravidez, doenças crônicas ou necessidade de avaliação urgente, a chegada da unidade reduz uma barreira geográfica que historicamente limitou o acesso à saúde pública.

O trabalho da embarcação integra uma rede mais ampla de assistência. Agentes comunitários de saúde percorrem localidades afastadas para identificar gestantes, acompanhar pessoas com hipertensão e diabetes, organizar campanhas de vacinação e detectar possíveis casos de malária e tuberculose.

Como conhecem as famílias e as características de cada comunidade, esses profissionais ajudam a manter o acompanhamento dos pacientes nos intervalos entre as expedições fluviais. A atuação também permite antecipar situações de risco e organizar os atendimentos prioritários antes da chegada das equipes.

Nas primeiras viagens da unidade, profissionais encontraram moradores que jamais haviam sido examinados por um médico. Alguns conviviam havia anos com hipertensão arterial ou diabetes sem diagnóstico, tratamento ou acompanhamento regular.

Para famílias com crianças, as visitas também representam a possibilidade de atualizar a carteira de vacinação sem enfrentar deslocamentos prolongados. A prevenção ganha importância adicional em localidades nas quais uma consulta presencial depende das condições do rio, da disponibilidade de transporte e dos custos da viagem.

O desafio observado em Manicoré se repete em diferentes partes do Amazonas. Maior estado brasileiro em extensão territorial, o Amazonas possui mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados e 62 municípios, muitos deles conectados principalmente por vias fluviais.

A dimensão territorial, combinada com a dispersão populacional, impede que o atendimento seja estruturado apenas em hospitais e postos fixos. O funcionamento do SUS na região exige embarcações, planejamento logístico, equipes móveis e calendários adaptados às condições de navegação.

Reservas extrativistas, comunidades ribeirinhas, áreas rurais e territórios indígenas apresentam necessidades distintas. Por isso, os municípios vêm desenvolvendo estratégias locais para ampliar a vacinação contra o papilomavírus humano (HPV), incorporar ferramentas digitais e aproximar os serviços básicos das populações mais distantes.

Essas iniciativas não se limitam ao uso de novas tecnologias. A inovação também aparece na organização das equipes, na definição das rotas, na permanência dos profissionais nas comunidades e na construção de relações de confiança com os moradores.

Parte dessas soluções foi reunida no livro Amazonas, Aqui Tem SUS, produzido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), pelo Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Amazonas e por gestores locais.

A publicação reúne relatos de médicos, enfermeiros, agentes comunitários e servidores envolvidos diretamente na execução das políticas. Os textos apresentam experiências desenvolvidas diante de problemas concretos, como isolamento territorial, baixa cobertura vacinal, dificuldade de transporte e escassez de estruturas permanentes.

O trabalho também registra a memória das políticas de saúde implementadas nos municípios amazonenses. Ao reunir diferentes iniciativas, o livro mostra como a atenção básica precisa ser ajustada às características sociais, ambientais e geográficas de cada território.

Nas regiões em que outros serviços públicos chegam de maneira irregular, o SUS se torna um dos principais vínculos entre o Estado e a população. Essa presença ocorre por meio do atendimento pré-natal, da distribuição de medicamentos, das campanhas de imunização, do controle de doenças e do acompanhamento feito pelos agentes comunitários.

A rede enfrenta limitações de infraestrutura, pobreza, longas distâncias e dificuldades logísticas. A cobertura também não ocorre de forma homogênea em todo o território. Ainda assim, as unidades fluviais permitem manter uma estrutura de cuidado em áreas nas quais postos tradicionais não seriam suficientes.

Em Manicoré, a navegação da Nossa Senhora das Dores pelos rios Madeira e Manicoré sintetiza essa adaptação. A unidade transforma o percurso fluvial em parte do atendimento e reduz o risco de que o lugar onde uma pessoa vive determine sua possibilidade de receber cuidados básicos de saúde.

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