CNI elogia corte da Selic, mas critica nível dos juros

Economia
Foto: CNI / Reprodução

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa básica de juros para 14% ao ano foi recebida de forma positiva pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Apesar de considerar o corte de 0,25 ponto percentual um passo na direção correta, a entidade avalia que a Selic continua em um patamar elevado e segue impondo dificuldades para a recuperação da economia, especialmente para o setor industrial e para as famílias brasileiras.

Em nota, o presidente da CNI, Ricardo Alban, afirmou que o atual nível da taxa básica de juros não encontra justificativa diante do cenário econômico e continua limitando o acesso ao crédito, reduzindo investimentos e comprometendo a capacidade de consumo da população.

Segundo Alban, os juros elevados tornam o financiamento mais caro tanto para empresas quanto para consumidores. Para a indústria, o custo do crédito dificulta novos investimentos, reduz a competitividade e desacelera a atividade econômica. Já para as famílias, a alta dos juros aumenta o peso das dívidas e amplia os índices de inadimplência.

A entidade defende que o cenário atual já permite cortes mais intensos na Selic. De acordo com a CNI, as expectativas para a inflação têm apresentado melhora nos últimos meses, abrindo espaço para uma flexibilização mais acelerada da política monetária.

As projeções citadas pela confederação indicam que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve encerrar 2026 com alta de 5,03%. Para 2027 e 2028, as estimativas permanecem dentro do intervalo de tolerância estabelecido pelo regime de metas de inflação.

Outro indicador destacado pela entidade é o IPCA-15, considerado uma prévia da inflação oficial. O índice acumulou alta de 4,52% nos 12 meses encerrados em julho, resultado inferior aos 4,8% registrados na medição anterior, sinalizando desaceleração da inflação.

A CNI também chamou atenção para a evolução dos chamados núcleos de inflação, indicadores que desconsideram oscilações mais intensas de preços e ajudam a identificar tendências de longo prazo. Segundo a entidade, a média desses núcleos ficou em 4,44% em junho, movimento que, na avaliação da confederação, demonstra uma trajetória mais compatível com a meta de inflação fixada em 3%.

Na avaliação da instituição, os números indicam uma acomodação tanto das pressões de demanda quanto dos choques de oferta, mesmo diante de fatores externos que continuam gerando incertezas, como conflitos geopolíticos e eventos climáticos extremos.

A CNI argumenta ainda que a taxa básica de juros permanece acima do nível considerado adequado para o atual momento da economia. Segundo cálculos da entidade, a Selic está cerca de 3,6 pontos percentuais acima do patamar sugerido pela chamada Regra de Taylor, modelo econômico utilizado para estimar uma taxa de juros capaz de controlar a inflação sem prejudicar o crescimento.

Pelos cálculos da confederação, a taxa indicada por esse modelo seria de aproximadamente 10,4% ao ano, bem abaixo dos atuais 14%. Além disso, a entidade destaca que a taxa de juros real, descontada a inflação, permanece próxima de 10%, enquanto a estimativa de taxa de equilíbrio utilizada pelo próprio Banco Central gira em torno de 5%.

Na avaliação da CNI, esse cenário demonstra que haveria margem para uma redução mais significativa dos juros sem comprometer o processo de controle inflacionário.

A confederação também alertou para os impactos da política monetária sobre o orçamento das famílias brasileiras. Com o crédito mais caro, financiamentos e empréstimos ficam mais onerosos, dificultando a renegociação de dívidas e comprometendo uma parcela maior da renda dos consumidores.

Segundo a entidade, o elevado custo do crédito reduz o consumo, aumenta o risco de superendividamento e limita a recuperação da atividade econômica. Embora programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola 2.0, contribuam para aliviar parte desse cenário, a CNI avalia que medidas desse tipo não resolvem problemas estruturais, como a baixa educação financeira da população e os elevados custos do sistema de crédito no país.

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