Risco fiscal sobe e lidera preocupação entre instituições

Economia

O risco fiscal voltou a ganhar força entre as instituições financeiras e continua sendo apontado como a principal ameaça à estabilidade do sistema financeiro brasileiro nos próximos três anos. A avaliação consta na Pesquisa de Estabilidade Financeira do terceiro trimestre, divulgada pelo Banco Central (BC) nesta quinta-feira (3). O levantamento mostra que 34% das instituições consultadas consideram a situação das contas públicas o risco mais importante, acima dos 27% registrados em maio.

A preocupação havia perdido força no levantamento anterior. Em fevereiro, 37% dos participantes apontavam o cenário fiscal como a principal ameaça, percentual que caiu para 27% em maio. Em agosto, porém, a proporção voltou a subir, alcançando 34%.

De acordo com o Banco Central, o aumento da preocupação está relacionado principalmente ao crescimento da dívida pública e à persistência do déficit primário. O cenário ocorre em meio à trajetória de alta do endividamento do governo e às dúvidas sobre a capacidade de estabilizar a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB) nos próximos anos.

Dados divulgados pelo próprio BC na semana passada indicaram que a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) chegou a 82,5% do PIB em julho. O valor corresponde a aproximadamente R$ 10,9 trilhões, acima dos 81,9% registrados no mês anterior.

A Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) também apresentou crescimento e atingiu 69,1% do PIB em julho, o maior percentual registrado na série histórica do indicador. A evolução dos dois índices reforça as preocupações das instituições financeiras sobre a trajetória das contas públicas e seus possíveis impactos sobre a economia.

Mesmo diante do aumento das preocupações com o cenário fiscal e com a inadimplência, as instituições continuam demonstrando confiança elevada na estabilidade do Sistema Financeiro Nacional (SFN). O índice de confiança, no entanto, apresentou uma nova queda, passando de aproximadamente 71,8 pontos em maio para 71,2 pontos em agosto.

A pesquisa do Banco Central ouviu 117 instituições, incluindo bancos, cooperativas de crédito, instituições de pagamento, gestoras de recursos, seguradoras e entidades fechadas de previdência complementar. A coleta das informações ocorreu entre 2 e 28 de julho.

Embora o risco fiscal apareça com maior frequência quando os participantes precisam indicar apenas a principal ameaça, a inadimplência e o comportamento da atividade econômica ganham destaque quando são considerados os três riscos mais relevantes apontados por cada instituição.

A preocupação com esses fatores aumentou pelo terceiro levantamento consecutivo. Em fevereiro, eram registradas, em média, 63 citações para cada 100 instituições. O número passou para 72 em maio e chegou a 81 em agosto, o maior resultado entre os riscos avaliados na pesquisa.

O Banco Central classificou tanto a possibilidade de ocorrência quanto o impacto potencial da inadimplência e da atividade econômica em níveis elevados. A probabilidade foi considerada “médio-alta”, enquanto o impacto foi avaliado como “alto”.

Segundo o levantamento, o avanço da preocupação está relacionado ao elevado nível de endividamento de famílias e empresas em um cenário de juros ainda altos. Quando tiveram de escolher apenas o risco considerado mais importante, 26% das instituições apontaram a inadimplência e a atividade econômica. Em maio, esse percentual era de 21%, enquanto em fevereiro havia ficado em 24%.

Os dados do sistema financeiro também mostram pressão sobre os devedores. Em julho, a inadimplência do Sistema Financeiro Nacional chegou a 4,9%. Entre as pessoas físicas, o índice alcançou 5,8%.

Nas operações de crédito com recursos livres destinadas aos consumidores, que normalmente apresentam taxas de juros mais elevadas, a inadimplência chegou a 7,8%. O cenário preocupa as instituições porque o aumento do custo do crédito pode dificultar a capacidade de famílias e empresas de manter os pagamentos em dia.

As instituições também avaliam que o nível de alavancagem de famílias e empresas permanece elevado. Apesar disso, houve redução da preocupação relacionada ao chamado hiato de crédito, indicador utilizado para verificar se a expansão do crédito está ocorrendo acima do ritmo considerado compatível com sua tendência de longo prazo.

O levantamento também avaliou a necessidade de medidas adicionais para reforçar a segurança do sistema financeiro diante do acúmulo de riscos. Mesmo com o aumento das preocupações com o cenário fiscal e a inadimplência, 95% das instituições consultadas disseram esperar e recomendar a manutenção do Adicional Contracíclico de Capital Principal, conhecido como ACCPBrasil, atualmente fixado em 0%.

O mecanismo funciona como uma espécie de colchão adicional de capital para o sistema bancário. Ele pode ser acionado pelas autoridades quando houver sinais de acúmulo de riscos financeiros e tem como objetivo aumentar a capacidade dos bancos de absorver eventuais perdas em períodos de maior instabilidade.

Caso o Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) decida elevar o percentual do ACCPBrasil, as instituições financeiras terão de aumentar o volume de capital próprio destinado à cobertura de possíveis perdas. Após uma eventual decisão de aumento, os bancos terão prazo de 12 meses para se adequar às novas exigências.

O resultado da pesquisa mostra que, apesar de o sistema financeiro manter um nível elevado de confiança em sua estabilidade, o cenário econômico exige atenção crescente das instituições. A trajetória da dívida pública, o déficit primário, o elevado endividamento de famílias e empresas e o avanço da inadimplência aparecem entre os principais fatores de preocupação para o setor nos próximos anos.

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